segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Tate Anna Sca comenta livro "1964 - O Elo perdido - Brasil nos Arquivos do Serviço Secreto Comunista"

"Venho contar a vocês um pouco da história real por trás do chamado "golpe" militar contada pelo livro 1964 -  O ELO PERDIDO - BRASIL NOS ARQUIVOS DO SERVIÇO SECRETO COMUNISTA que traduziu os arquivos secretos da StB, KGB Tcheca."

Livro:



Vídeos:
https://www.youtube.com/watch?v=Fq8VLc1mrb8
https://www.youtube.com/watch?v=leoEPr-xIpc
https://www.youtube.com/watch?v=cz4zLLkxmRA
https://www.youtube.com/watch?v=yN-GwSuugwY


1964 - O ELO PERDIDO - 1


1964 - O ELO PERDIDO - 2



domingo, 28 de janeiro de 2018

Ex-espião Soviético diz "Nós criamos a Teologia da Libertação"

Original: https://www.catholicnewsagency.com/news/former-soviet-spy-we-created-liberation-theology-83634

CNA: Em termos gerais, é possível dizer que o crescimento da Teologia da Libertação teve alguma conexão com o governo Soviético?

Ion Mihai Pacepa: Sim. Eu descobri sobre o envolvimento da KGB na Teologia da Libertação diretamente do General Soviético Aleksandr Sakharovsky, conselheiro chefe do departamento de inteligência estrangeira da Romênia (Razvedka), que foi o meu verdadeiro chefe até 1956, ano que ele se tornou chefe de um dos serviços de espionagem da União Soviética, a PGU, posição que ele manteve por 15 anos, um recorde.

No dia 26 de Outubro de 1959, Sakharovsky e seu novo chefe, Nikita Khrushchev, vieram à Romênia para o que acabou conhecido como "as férias de seis dias do Khrushchev". Ele nunca tinha tirado férias tão longas antes, nem estava na Romênia para realmente descansar. Khrushchev realmente queria entrar na história como o líder Soviético que exportou o comunismo para a América Central e para a América do Sul. Sendo a Romênia o único país com tradições latinas no bloco Soviético, Khrushchev em pessoa foi se certificar que todos os "líderes latinos" estavam prontos para começar as novas guerras pela liberação.

Já ouvi falar do Sakharovsky em teus textos, porém nunca encontrei mais nada relevante sobre ele. Por quê?

Sakharovsky foi um dos segredos Soviéticos dos anos mais quentes da Guerra Fria, naquela época nem mesmo alguns membros dos governos de Israel e do Reino Unido, por exemplo, sabiam a identidade dos agentes da Mossad e do MI-6. Sakharovsky, porém, teve um papel extremamente importante moldando a história da Guerra Fria. Ele foi o responsável pela exportação do comunismo para Cuba; teve uma participação nefasta na crise de Berlim (1958-1961) que culminou na criação do muro de Berlim; e arquitetou a Crise dos Mísseis (1962) que quase começou uma guerra nuclear.

A Teologia da Libertação é um movimento que de algum modo foi criação de alguma equipe do Sakharovsky dentro da KGB, ou é um movimento que foi apenas promovido pela URSS?

O movimento nasceu de dentro da KGB, e tem um nome bem KGB: Teologia da Libertação. Durante aqueles anos, a KGB tinha uma inclinação pelos movimentos de "liberação", por exemplo: o exército pela liberação nacional na Colômbia (FARC), criado pela KGB com a ajuda do Fidel Castro; o exército de liberação da Bolívia, criado pela KGB com a ajuda do Che Guevara; a Organização pela Liberação da Palestina (PLO), criada pela KGB com a ajuda do Yasser Arafat etc... estes foram apenas alguns dos movimentos de liberação criados em Lubyanka, onde fica a sede da KGB.

O nascimento da Teologia da Libertação foi intenção de um encontro super secreto que ocorreu em 1960 chamado "Programa de Desinformação do Partido-Estado" que foi aprovado por Aleksandr Shepelin, presidente da KGB e pelo membro do politburo Aleksey Kirichenko, que coordenava as políticas internacionais do Partido Comunista. Este programa demandava que a KGB tomasse o controle do Conselho Mundial das Igrejas (WCC), baseado em Geneva na Suíça, e o usasse como fachada para transformar a Teologia da Libertação numa ferramenta revolucionária na América do Sul. O WCC era a maior organização ecumênica fora o Vaticano, representando de algum modo 550 milhões de Cristãos de várias denominações por mais de 120 países.

O nascimento de um movimento religioso é um evento histórico. Como esse nascimento ocorreu?

A KGB começou criando uma organização intermediária chamada Conferência Cristã pela Paz (CPC), que possuía sua sede em Praga. Sua função era trazer à vida a idéia da Teologia da Libertação, assim como idealizada  pela KGB.

Esta conferência (CPC) foi gerenciada pela KGB e era subordinada da venerada Conselho pela Paz Mundial, outra criação da KGB, fundada em 1949 e também sediada em Praga.

Durante os meus anos no topo da comunidade da inteligência do bloco Soviético, eu mesmo gerenciei operações para o Conselho pela Paz Mundial (WPC). Ela era KGB de cima abaixo. A maioria dos funcionários da WPC eram oficiais da inteligência Soviética disfarçados. As duas publicações da WPC, ambas em francês, "Nouvelles perspectives" e "Courier de la Paix" também eram gerenciadas por funcionários da KGB e da DIE Romena. Até mesmo o dinheiro da WPC vinha de Moscou e era entregue pela KGB na forma dólares lavados, para esconder sua origem Soviética. Em 1989, quando a União Soviética estava para colapsar, a WPC assumiu publicamente que 90% do seu dinheiro vinha da KGB.

Como começou a Teologia da Libertação?

Eu não estava envolvido na criação em si da Teologia da Libertação. Porém, Sakharovsky me disse que em 1968, a CPC, conferência cristã criada pela KGB, com apoio da WPC, conseguiu manobrar um grupo de bispos esquerdistas na América do Sul para estabelecer a Conferência Latina Americana de Bispos em Medellín , na Colômbia. A função original da conferência era descobrir modos de aliviar os males da pobreza, porém seu objetivo não declarado foi reconhecer um novo movimento religioso, encorajando os pobres a se rebelar contra a "violência institucionalizada da pobreza" e recomendava que o Conselho Mundial das Igrejas dessa aprovação oficial ao movimento.

A Conferencia de Medellín alcançou seus dois objetivos. E ainda utilizou o nome idealizado pela KGB: Teologia da Libertação.

A Teologia da Libertação possui seus próprios líderes, alguns são figuras "pastorais" até famosas, alguns são intelectuais. Você sabe se teve envolvimento Soviético em promover a imagem ou os escritos destas personalidades? Por exemplo, Bispo Sergio Mender Arceo do México? Helder Camara do Brasil? Alguma conexão com teólogos liberais como Leonardo Boff, Frei Betto, Henry Camacho ou o Gustavo Gutierrez?

Tenho bons motivos para suspeitas que exista uma forte conexão entre a KGB e alguns dos seus principais apoiadores, porém não tenho nenhuma evidência para prová-la. Nos meus últimos 15 anos na Romênia (1963-1978), eu gerenciei a espionagem científica e tecnológica, assim como as operações de desinformação que visavam melhorar a imagem do Ceausescu no Ocidente.

Recentemente, dando uma olhada no livro do Gustavo Gutierrez "Teologia da Libertação: Perspectivas" de 1971, eu tive a sensação que foi escrito na KGB. Não é a toa que ele é tido como o fundador da Teologia da Libertação. Agora, daí para possuir provas é um longo caminho.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Como a espionagem comunista se infiltrou no governo de dois ex-presidentes brasileiros

Dois pesquisadores resgatam a trajetória do serviço secreto da Tchecoslováquia, que foi muito atuante no Brasil nas décadas de 1950 e 1960 e enviou informações para Moscou.
Existem espiões em todas as épocas e todos os lugares, especialmente durante conflitos ou situações de tensão entre blocos de países. É natural imaginar que, durante a Guerra Fria, havia agentes e informantes em todos os cantos do planeta. 
O Brasil, o maior país da América Latina, era um território estratégico, principalmente depois que um pequeno grupo de guerrilheiros transformou Cuba em uma ilha socialista a poucos quilômetros dos Estados Unidos. Mas quem exatamente circulou no Brasil? Que informantes utilizaram? Que estratégias adotaram? 
É conhecido o interesse da CIA em interferir nos rumos políticos brasileiros nos anos 1950 e 1960. Afinal, o país abriu boa parte de seus arquivos e o que se sabe já indica que Washington acompanhou bem de perto o contexto do país. Chegou a se preparar para dar apoio militar aos adversários do presidente João Goulart, uma medida que acabou não sendo necessária. No caso do bloco soviético, os arquivos em geral permanecem fechados, ou de difícil acesso. Com uma exceção muito importante: a Tchecoslováquia. 
O país era influente no Brasil. Empresários importantes, filhos ou netos de tchecos, eram respeitados, principalmente no Sul e Sudeste. Não eram necessariamente adeptos do comunismo, é claro, mas sua presença oferecia bela fachada que os agentes tchecos aproveitaram ao longo dos anos 1950 e 1960. 
Melhor ainda: depois da redemocratização realizada a partir dos anos 1990, a Tchecoslováquia abriu quase todos os seus arquivos que documentam a atuação de seu serviço secreto. Só faltava quem fosse até lá com muita disposição e conhecimento mínimo do idioma. 
Com a publicação de 1964: O Elo Perdido, Mauro Kraenski e Vladimir Petrilák começam a suprir essa lacuna. A obra traça um panorama detalhadíssimo a respeito da atuação da Státní Bezpečnost (StB), a polícia secreta tcheca, no Brasil, entre 1952 e 1971. Conclui que assessores muito próximos de pelo menos dois presidentes brasileiros atuaram fornecendo informações para o lado de lá da cortina de ferro. 
Arquivos abertos 
Ao fim da Segunda Guerra Mundial e a formação do bloco de países aliados da Rússia, diferentes serviços secretos surgiram para investigar as populações locais e também espionar e agir no exterior. Sabemos que, no Brasil, agentes da Polônia, da Alemanha Oriental, de Cuba e da Tchecoslováquia moraram no país. Todos repassaram informações para suas sedes. Dali, os relatórios seguiam para Moscou. Quando necessário, os russos interferiam, pedindo mais informações ou assumindo o controle de determinadas operações. 
“É realmente impressionante que o serviço de inteligência da pequenina Tchecoslováquia tenha sido capaz de atuar em tantos países do mundo. Foi um verdadeiro serviço de inteligência global em suas atuações. Possuiu suas rezidenturas (sedes) em vários países latino-americanos, como Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Colômbia, Venezuela, Bolívia, México, Equador”, diz Mauro Kraenski, tradutor versado em polonês, com boas noções do idioma tcheco. 
Mauro passou dois anos digerindo as informações disponíveis nos arquivos de Praga, a capital. Quando encontrou dificuldades, foi socorrido pelo coautor, o colunista tcheco Vladimir Petrilák. 
“Não foi nem um pouco difícil ter acesso aos documentos”, diz Vladimir. “O arquivo é público e está aberto para qualquer um que deseje pesquisar. Não houve censura de documentos, somente em alguns poucos casos recebemos a informação de que determinada pasta deveria passar por um tipo de avaliação. Trata-se de uma formalidade, mas ao fim, depois de um curto período de tempo, estas pastas também foram liberadas”. 
O site oficial do livro apresenta alguns desses documentos. 
Visão negativa dos brasileiros
A StB começou a agir entre nós no Rio de Janeiro, com um único agente, o barbeiro por profissão Jiří Kadlec, codinome Treml. Tinha 27 anos e só havia feito um curso de espionagem de dois meses. Seu maior objetivo estava bem claro: “A missão mais importante era a luta contra os Estados Unidos da América e muitas das tarefas tinham como objetivo desacreditar os americanos e prejudicar a sua imagem”. 
Ele vivia sozinho num apartamento que funcionava como a “rezidentura”, o nome das instalações de agentes no exterior. Na mesma época, a rezidentura da StB em Nova York abrigava sete agentes; a de Buenos Aires, quatro. Treml agiu sozinho por dois anos e, em seus relatórios, reclamou muito. Primeiro, porque não tinha estudado português o suficiente antes de se mudar. Segundo, porque seu apartamento mal tinha móveis. Ele não tinha autorização para mobiliá-lo nem verba para levar informantes para passear ou jantar. Poucos anos depois, a situação havia mudado bastante. 
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Em 1962, depois de dez anos de atividades, já viviam no Rio vários agentes, que mantinham uma boa rede de relacionamento. Também havia um espião vivendo em Brasília e contatos esporádicos em São Paulo. 
Um manual básico sobre o Brasil para novos espiões, datado dessa época, descrevia o país da seguinte forma: 
“O funcionário do serviço de inteligência no Brasil terá contato principalmente com a população das grandes cidades, ou seja, com a chamada classe média, da qual procedem a maioria dos funcionários públicos federais. Um brasileiro, ao contatar com um estrangeiro, possui uma tendência em fazer uma grande quantidade de promessas, já supondo que não cumprirá nenhuma delas. São pessoas preguiçosas e bem levianas, com as quais não se pode contar.” 
O texto continua: “No Brasil, por regra, encontramos pessoas ignorantes, que, mesmo com numerosos títulos científicos, não chegam aos pés da nossa gente com formação primária.” 
Contato com Jânio e Jango 
Além de fazer este tipo de estudo sobre as características sociais, políticas e comportamentais do país, os tchecos tinham um objetivo claro: convencer formadores de opinião nacionalistas, incomodados com a influência dos Estados Unidos sobre o Brasil. Um dos critérios para descartar um possível informante, inclusive, era sua participação em partidos de esquerda, que fariam dele um alvo fácil demais, capaz de expor a própria StB. 
“O serviço de inteligência tchecoslovaco determinava alvos de interesse”, diz Mauro. “No Brasil, podemos citar: Ministério das Relações Exteriores, Congresso Nacional, instituições científicas, polícia, serviço de inteligência, partidos políticos, jornalistas, Petrobrás, Exército, Confederação Nacional da Indústria”. A exceção mais notável foi Francisco Julião: a StB se mostrou muito interessada no líder das Ligas Camponesas e chegou a avaliar seriamente sua capacidade para liderar uma revolução comunista. 
Foi ao buscar este perfil de pessoas, capaz de influenciar a imprensa e a economia, que os agentes tchecos alcançaram figuras de alto escalão no cenário político brasileiro pré-1964, incluindo jornalistas com acesso ao presidente e aos bastidores de eventos, assessores de ministros e diretores de departamentos estratégicos em Brasília. 
Dois casos, em especial, chamam a atenção. O tradutor Alexandr Alexeyev, agente da KGB, ficou próximo de Jânio Quadros quando o então presidente visitava Moscou como político de oposição, em 1958. Nesse caso, os arquivos da StB fornecem um vislumbre da ação do alcance da KGB no Brasil. Alexeyev estava em Cuba quando Jânio foi eleito. A StB ajudou a conseguir o visto para que ele entrasse no Brasil. Graças a um contato dos agentes tchecos em Brasília, o agente russo conseguiu, em 5 de maio de 1961, realizar uma reunião com o presidente. Ouviu de Jânio a promessa de que as relações diplomáticas do Brasil com a URSS seriam reatadas – o que de fato aconteceria, em novembro. 
E há a história da aproximação com João Goulart. Jango visitou a Tchecoslováquia em dezembro de 1960, como vice-presidente. Da visita, os agentes relataram uma impressão positiva. E ficaram mais bem relacionados ainda com Raul Francisco Ryff, um assessor muito próximo de Jango. Durante todo o governo de João Goulart, a StB foi mantida muitíssimo bem informada sobre as intenções do presidente. 
Pró-Cuba
A StB também liderou uma frente de formadores de opinião pró-Cuba. Chegou a formar um grupo, a Frente Nacional de Apoio a Cuba (FNAC), que em 1963 organizou em Niterói o Congresso Continental de Solidariedade a Cuba. Também emplacou artigos em jornais e revistas a favor de Cuba e dos soviéticos e contra os Estados Unidos. 
Ainda assim, a influência junto a essas figuras e a capacidade de organizar eventos em solo nacional não permitiu que a StB percebesse nem a renúncia de Jânio, em 1961, nem a aproximação do golpe militar de 1º de abril de 1964. 
Os próprios agentes fazem a autocrítica a respeito dessa falha grave: “A deposição de Goulart foi realizada diretamente pela extrema reação de círculos civis e militares, ou seja, por aquelas mesmas pessoas que realizam golpes em pequenos países centro-americanos”, apontam em seu relatório. “O fato é que nestes círculos nós não possuímos nem nossa rede de agentes, nem contatos secretos”. Sinal de que a meta de se aproximar dos militares nunca foi atingida. 
Reação ao golpe 
Depois do golpe, a StB tentou ajudar a reação. Fez contatos com Leonel Brizola, genro de João Goulart e possível líder de uma reação armada. Mas Brizola adiou a ação, alegando que ainda não havia espaço para uma reação consistente. 
A partir de então, começou a terceira fase do serviço de espionagem tcheco em solo brasileiro. Ela acabou se mostrando um esforço cada vez mais perigoso, na medida em que o regime militar brasileiro aumentava o cerco sobre estrangeiros originários do Leste Europeu. Isso não quer dizer que a permanência não tenha dado nenhum resultado.“A StB sabia que Cuba apoiava a guerrilheiros e inclusive, no âmbito de uma operação que se chamava Manuel ajudou no transporte, via Praga, de latino-americanos, inclusive brasileiros, que faziam treinamento de guerrilha em Cuba”, diz Mauro. 
Em 1971, o escritório da agência foi definitivamente fechado. Em algum momento o serviço de espionagem tcheco teria sido capaz de induzir um golpe de esquerda no Brasil? Não, mas conseguiu ser influente o suficiente para influenciar parcelas da imprensa e municiar Moscou de boas informações sobre os bastidores do governo brasileiro. Não é pouca coisa. As pesquisas de Mauro e Vladimir continuam, mas, por enquanto, já foram localizados mais de três dezenas colaboradores brasileiros. 
“Não temos a intenção de denegrir a imagem de ninguém; não somos nós que estamos afirmando que alguém foi um colaborador, são os documentos do arquivo da polícia secreta da Tchecoslováquia comunista que o dizem”, afirma Vladimir. “Por enquanto, pudemos encontrar informações sobre cerca de 30 colaboradores brasileiros, descritos como agentes ou contatos secretos. Estamos falando de, por exemplo, diplomatas, economistas, jornalistas”.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A difamação contra Pio XII







Original: https://padrepauloricardo.org/episodios/a-difamacao-contra-pio-xii

A difamação contra Pio XII
por Padre Paulo Ricardo

É sabido que os comunistas não conseguem conviver com o Papado, com o Cristianismo. Por isso, sempre que podem lançam mão de suas táticas para desmoralizá-los e prejudicá-los. Foi o que fizeram com o Papa Pio XII.

Por muito tempo foi alimentado o boato de que o Papa Pio XII, por ocasião da Segunda Guerra Mundial, havia sido um aliado de Hitler e que teria auxiliado e incentivado o Holocausto. No ano de 1963, foi lançada a peça teatral “O Vigário", que teria o propósito de retratar o Papa Pio XII vinculando-o a Hitler, tachando-os de amigos.

Por ordem de Nikita Kruschov, a KGB montou uma farsa para incriminar o Papa, que já estava morto e não podia defender-se. Vários documentos falsos foram forjados, os quais davam a impressão de que havia uma afinidade, uma amizade entre Hitler e o Papa Pio XII. Tais documentos embasaram a peça teatral mencionada. Contudo, pela pesquisa histórica ocorrida quando os arquivos secretos da KGB foram abertos, o que se viu foi exatamente o contrário: Hitler odiava Pio XII e queria destruí-lo.
Diante disso, os comunistas utilizaram outra tática, a da desmoralização, pois, passaram a acusar Pio XII de ter silenciado diante das atrocidades de Hitler. O livro “O Papa de Hitler", de John Cornwell, foi publicado em 1999 versando sobre essa mentira. O autor teria passado meses pesquisando nos arquivos do Vaticano, porém, isso não é verdade, pois ele não passou mais que algumas horas e teve pouquíssimo acesso aos arquivos. As teses por ele apresentadas não têm o menor fundamento.

Para quem deseja saber o que realmente dizem os arquivos secretos do Vaticano sobre Pio XII, o Nazismo, a Segunda Guerra Mundial, a indicação é o livro do Padre Pierre Blet, “Pio XII e a Segunda Guerra Mundial segundo os Arquivos do Vaticano". Trata-se de uma investigação histórica séria e não uma farsa como a montada por John Cornwell.

Os mais desconfiados poderiam lançar a pergunta: como saber que realmente se trata de uma farsa forjada pelos comunistas? Em 2007, veio a público a confissão de um ex-agente da KGB, Ion Mihai Pacepa, o qual passou para o lado ocidental, abandonando o comunismo em 1978. Ele escreveu um livro (“Horizonte Vermelho", lançado pela Editora Principia) relatando os crimes do ditador Nicolau Ceausescu e também da farsa montada contra Pio XII. Tais fatos foram bastante divulgados e são de fácil comprovação, basta querer a verdade.

A verdade, porém, não é algo facilmente suportado pelos comunistas. Para entender como eles e seus correlatos marxistas, socialistas, não existe a Verdade, mas tão somente a matéria, caótica, sem lógica, sem racionalidade. Para eles, o mundo material vive em um eterno conflito dialético e dentro desse mundo existem somente as ideias que são criações humanas para defender os próprios interesses. Assim, o que realmente importa é a ideologia, a criação de ideias para defender seus próprios interesses. Em nome deles, até mesmo a mentira é utilizada. É por isso que se torna uma redundância chamar um comunista de mentiroso.

E, como a mentira é o método de ação dos comunistas/marxistas/socialistas eles não conseguem debater com os cristãos, aliás, eles não entram em debates, pois, se o fizerem, perderão. É quase impossível. Dessa forma, procuram desmoralizá-los, como fizeram com o Papa Pio XII. Como não conseguem debater no campo das ideias, eles atacam a pessoa.

A verdade sobre Pio XII, enfim, apareceu. É preciso fazer com que ela seja conhecida pelo maior número de pessoas possível e, ao mesmo tempo, mostrar como é o método de ação dos comunistas, desmascarando-os. Faz parte da luta de cada cristão entender como os comunistas agem, como eles tratam aqueles que desejam permanecer fiéis à Igreja.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Desinformação: A Estratégia Secreta para Destruir o Ocidente


Neste documentário do oficial Soviético com patente mais alta a desertar o bloco comunista para o Ocidente, você vai descobrir:
  • Como destruir a reputação de bons líderes mundiais se tornou uma ciência e até mesmo uma arte para os Soviéticos;
  • Como o Papa Pio XII, que a duas gerações atrás era o líder cristão mais popular e que pessoalmente salvou incontáveis judeus do Holocausto Nacional Socialista Alemão, foi transformado, pela mágica da desinformação, num nazista;
  • Como o Cristianismo e o Judaísmo têm sido alvo de constantes degradações e difamações através de uma constante campanha de desinformação;
  • Como o bloco Soviético plantou 4.000 agentes de influência no mundo Islâmico, armados com centenas de milhares de cópias do livro anti-semita mais famoso da história, e reacendeu a extinta chama de ódio contra os EUA e Israel, que até hoje geram violência contra os cristãos e judeus;
  • Como ataques difamatórios feitos por soldados Americanos, John Kerry e John McCain entre eles, feitos perante o Congresso quando retornaram do Vietnã (todos devidamente refutados hoje em dia) são idênticos às campanhas de desinformação da KGB que visam jogar os Americanos contra os seus líderes;
  • Como instituições globais supostamente respeitáveis, como o Conselho Mundial de Igrejas (World Council of Churches), são infiltradas e controladas pela inteligência Russa;
  • Como o bloco soviético fez com o mundo inteiro acreditasse que o assassinato do presidente John F. Kennedy foi armado pelo governo Americano;
  • Como a União Soviético se tornou a primeira ditadura secreta da história;
  • Como toda a desinformação continua ativa, especialmente no governo Obama, agora se utilizando da estrutura escondida que ele controla em Washington, para a contínua transformação social dos EUA.
Ambos vídeos foram legendados para Português.

Desinformação: A Estratégia Secreta para Destruir o Ocidente - Parte 1




Desinformação: A Estratégia Secreta para Destruir o Ocidente - Parte 2


sexta-feira, 28 de abril de 2017

America Under Siege: Soviet Islam

Parte 2 de um documentário mostrando a rede de radicais marxistas que influenciam a política interna nos EUA.



"Soviet Islam" is the second episode in the five-part America Under Siege documentary web-series releasing over the course of 2017. Each episode profiles the influence of radical Marxists on various segments of American society.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Revelando os Agentes

Original:
http://stb.cepol24.pl/pt/revelando-os-agentes

REVELANDO OS AGENTES

Ao publicar informações sobre o trabalho do serviço de inteligência tchecoslovaco no Brasil e na América Latina, logicamente fazemos surgir perguntas sobre concretos colaboradores entre as fileiras de cidadãos brasileiros e de outros países da América do Sul. É óbvio que nenhum serviço de inteligência pode realizar seu complexo trabalho sem as pessoas certas que, no modo de ver da inteligência, ocupam uma posição importante ou útil (para o serviço de inteligência estrangeiro) nas estruturas da sociedade. Isso pode fazer com que os objetivos sejam alcançados e, pode trazer vantagens (às vezes mútuas) para a inteligência estrangeira e para dado colaborador.  E também pode causar danos – para dado país e, sem dúvidas, também para a psique do agente.
O colaborador – um cidadão brasileiro – trabalhava para a StB por diversas razões. A motivação ideológica foi um fenômeno comum. Isso significa que tratava-se de uma pessoa descrita nos documentos da StB como sendo progressista, de convicções esquerdistas (mas atenção: filiados a partido comunistas não eram recrutados) ou nacionalista – era justamente destes ambientes que vinham pessoas com tendências hostis aos EUA e à sua política na América do Sul, e isso já colocava o candidato a colaborar em uma posição de aliado do bloco socialista. Ou seja, essas eram pessoas que concordavam em colaborar com o serviço de inteligência estrangeiro não por dinheiro, mas por um ideal. Logicamente os funcionários tchecoslovacos da inteligência persuadiam essas pessoas de que, caso colaborassem, não prejudicariam o Brasil, mas sim os Estados Unidos e os seus aliados do imperialismo que era o inimigo de todas as pessoas progressistas no mundo. Esses casos representam a maioria das pessoas durante a história dos quase vinte anos da atuação da StB no Brasil.

Recibo no valor de 200 dólares americanos firmado por um agente, no Rio de Janeiro, datado 22 de abril de 1969.

Muitas vezes, acontecia que, com o passar do tempo, o dito entusiasmo ideológico diminuía e o dado agente começava a exigir ( e recebia) pagamentos financeiros por seus serviços. Também aconteciam casos onde realmente a colaboração tinha motivação unicamente ideológica – nesta situação o agente recebia presentes (cigarros americanos, álcool, louça tcheca, discos gramofônicos, etc.) ou outro tipo de benefício, como, por exemplo, viagem e estadia pagas para a Tchecoslováquia ou para outro país do bloco da Europa oriental. Isso não significa que um colaborador como este nunca recebia dinheiro da StB –  pagavam-lhe, por exemplo, os gastos necessários para que mantivesse contatos importantes, graças aos quais adquiria informações: como as despesas para um convite de jantar em um restaurante – ou viajar para algum lugar – geralmente estes gastos eram reembolsados. Certamente, em muitos casos, os agentes identificavam os valores gastos exageradamente,  os oficiais da StB tinham consciência do fato e, mesmo assim, pagavam o valor a maior, pois entendiam que era necessário para poder comprometer ainda mais o agente e chantageá-lo se preciso. Nesses casos, os oficiais da inteligência tchecoslovaca exigiam uma assinatura do colaborador em um recibo, com a declaração de que o dinheiro lhe fora entregue. Primeiro, isso era uma exigência da central para controle dos gastos operacionais de inteligência e, segundo, uma assinatura como essa era um material comprometedor a mais, algo que vincularia o agente a ser leal perante o seu chefe estrangeiro. Também existiam pessoas que trabalharam em prol da StB unicamente por motivos financeiros.


É necessário esclarecer ainda uma questão técnica: cidadãos brasileiros estão relacionados com o trabalho de toda a polícia da StB: eram objeto de interesse tanto do  Departamento I, ou seja, o serviço de inteligência que operava principalmente no exterior, como também do Departamento II, a contraespionagem tchecoslovaca, que por sua vez, ocupava-se dos cidadãos brasileiros que se encontravam na Tchecoslováquia. E por isso que nas páginas de internet do Arquivo dos Serviços de Segurança tcheco, o ABS  ( órgão vinculado ao Instituto de Pesquisas de Regimes Totalitários – ÚSTR ) podemos encontrar muitos nomes, que soam como de brasileiros ou portugueses, com diferentes números de registro. Através do registro em duas fontes básicas de dados disponíveis já é possível ter uma orientação se era o serviço de inteligência no exterior ou a contraespionagem que se interessava pela pessoa. Em outras palavras: se a pessoa foi “trabalhada” (observada, monitorada) no Brasil ou na Tchecoslováquia. Na página da  ABS é possível encontrar dois tipos de registros:
– no Diário de registros (em tcheco: Protokol registrace osobních svazků tajných spolupracovníků);
– no Diário de arquivos (po czesku Archivní protokol svazků spolupracovníků).
Ambos os livros foram conduzidos separadamente para colaboradores secretos, para casos operacionais, bases de objetos de interesse e para correspondências operacionais.


No Diário de registros foram anotados cronologicamente os casos e pessoas que o serviço de inteligência começou a “trabalhar” ou teve um interesse em geral por eles. Isso significa que o nome de uma pessoa pode existir em alguns livros; vamos demonstrar isso através de um exemplo. A StB “trabalhou”, entre outros, o ambiente jornalístico brasileiro. Ou seja, o  serviço de inteligência se interessou por determinadas redações de jornais e por pessoas que nelas trabalhavam. Um destes objetos de interesse foi por exemplo, o jornal “Última Hora”. Como um jornal é formado por pessoas, a StB também teve que se interessar por pessoas concretas ligadas a este jornal. Este tipo de verificação era anotado na pasta de objetos dedicada ao ambiente jornalístico, a saber na subpasta do objeto “ambiente jornalístico”. Então esta pessoa, como um tipo – figurante –, ou seja, alguém por quem a StB estava interessada, possuía a sua subpasta na pasta de objeto. Aqui então não se tratava de um agente, mas somente de uma pessoa que era por algum motivo, relevante ou interessante para a StB. Caso fosse possível “trabalhar” esta pessoa a tal ponto para que pudesse ser recrutada e adquirida como agente, era aberta uma nova pasta: desta vez, uma pasta pessoal de agente. Ou seja, a pasta do agente. Este fato era novamente anotado no Diário de registros. Os Diários de arquivo, por sua vez, serviam para anotar o fato do envio da pasta para o arquivo. Isso significa, que o caso relacionado com o objeto de interesse, pessoa ou correspondência, etc… foi encerrado. Os motivos eram diversos: o agente faleceu, recusou-se a colaborar, houve uma de desconspiração (foi descoberto), o serviço de inteligência deixou de se interessar por algo ou por alguém, etc. Em um caso como este, era encerrado e a documentação com ele relacionado era arquivada e isso ficava anotado no Diário apropriado. Sendo assim, dado nome ou dado caso, anotado nos Diários de registro, deixavam a sua marca, desta vez, nos Diários de arquivo. Aconteciam casos em que, após alguns anos de arquivamento, a pasta “revivia” e era posta novamente em circulação, surgindo assim uma nova anotação no Diário de registros.  É por isso que existe a possibilidade de um nome aparecer varias vezes durante uma busca na página de internet do ABS.

Capa de um Diário de registro de agentes.

Durante a existência da StB (1945- 1989/1990), o sistema de registros passou por mudanças, mas para nós o importante é que o serviço de inteligência, ou seja, o Departamento I (1. správa MV), registrou os seus colaboradores – agentes com números de registro com 5 dígitos que iniciavam com o número 4. Ou seja, começando a partir do número 40001, neste sistema eram registrados os agentes tchecos e estrangeiros, que trabalhavam em prol do serviço de inteligência no exterior. Então, caso exista, ao lado de um nome, o número de registro  40001 em diante e como órgão que direcionou o registro ao Diário conste: 1. Správa SNB ou 1. Správa MV ou 1. Správa FMV (SNB para Forças de Segurança Nacional,  MV para Ministério do Interior, e, a partir do ano de 1968, FMV para Ministério Federal do Interior), significa que, sem dúvidas, estamos lidando com um colaborador secreto e consciente do serviço de inteligência tchecoslovaco. Pois era assim que esta pessoa era avaliada pela StB, já que registrar alguém na lista de agentes exigia a confirmação do chefe da inteligência: por regra, era o Ministro do Interior.
Informamos ainda que, quanto aos agentes tchecos, geralmente funcionava uma prática, ao se iniciar a colaboração com a StB era confirmado através da assinatura do agente em uma declaração de colaboração ou juramento de manter o seu sigilo (ocultar o fato de contato com a StB); por outro lado, no que diz respeito a cidadãos estrangeiros este compromisso formal por escrito não era exigido. Neste caso, a StB atuava conforme as diretrizes nas quais estava escrito que a assinatura de estrangeiros não era exigida.
            Sendo assim, quando encontramos na página de internet do ABS, em qualquer diário, o nome de uma pessoa junto a um número de cinco algarismos, começando pelo número quatro e quando o órgão junto ao nome ou ao codinome for  1. správa, podemos ter certeza de que, na avaliação da StB, tratava-se de um colaborador secreto do serviço de inteligência, de um agente ou de um contato confidencial.
Para que fique mais claro é bom ainda descrever o significado de outros números de registro usados pelo serviço de inteligência. Os números de cinco algarismos usados pela inteligência que comecem com o número Um significavam uma pasta conduzida para um objeto (ou seja, direcionada para um ambiente da sociedade). Tratavam-se de objetos como: parlamento, gabinete presidencial, políticos, Ministério de relações exteriores, jornalistas, empresas, forças armadas, polícia, movimentos sociais (por ex. Ligas Camponesas), etc… O número Dois também estava relacionado com pastas de objetos. Três estava relacionado com números de pastas pessoais de funcionários de carreira: ou seja, oficiais do serviço de inteligência. As pastas eram abertas para aqueles oficiais que eram enviados para postos no exterior, principalmente diplomáticos. Quatro: já tratamos acima. Cinco e Seis também eram pastas pessoais. Estes números desapareceram durante a última reforma do sistema de registros em 1988. Sete era o início dos números de registro destinados a moradias conspiradas. Oito, pastas de correspondência operacional – geralmente correspondências entre a central e a rezidentura. O número Nove, por sua vez, estava destinado a operações ativas e operações de influência. As pastas Nove foram as que menos se conservaram no arquivo. As pastas que eram divididas em várias partes também tinham as suas regras, mas agora não iremos nos ocupar destes detalhes.
É ainda necessário informar que, algumas vezes,  uma pessoa com o status de figurante (em tcheco: typ), ou seja, uma pessoa que estivesse sendo “trabalhada” pela inteligência, mas que ainda não era um colaborador secreto, muitas vezes era descrita nas avaliações dos órgãos que a conduziam da seguinte maneira: “trabalha como um agente, mesmo que (ainda) não o é”. Isso significa que, entre esses figurantes ou os contatos (em tcheco: styk), haviam muitas pessoas das quais os “amigos” da Tchecoslováquia se aproveitavam, delas adquirindo informações ou com elas realizando ações, o que permitiu aos oficiais da inteligência classifica-las como “contatos muito eficientes e, que, praticamente, já trabalhavam como agentes”. Muitas vezes, por diferentes motivos, o “trabalho” (ou seja, o recrutamento e a classificação de figurante para agente) não chegou a ser finalizado. Os motivos eram diversos: o figurante podia dar-se conta sobre a natureza que o contato estava adquirindo, podia se assustar ou entender que não poderia seguir adiante. Também podia adoecer, perder sua função ou emprego e desta maneira tornar-se inútil para o serviço de inteligência do país estrangeiro, poderia dizer a alguém a respeito da sua relação com um diplomata tcheco e, desta maneira, delatar o oficial da inteligência. Como podemos ver, motivos não faltavam e, agora, também é possível compreender por que os oficiais do serviço de inteligência, sob a cobertura diplomática, se esforçavam para ter o máximo possível de conhecidos e, assim, possuir uma larga base de pessoas para poderem encontrar verdadeiras pérolas: bons informantes, colaboradores e, finalmente, agentes.
Devemos entretanto lembrar que inclusive a aquisição de um agente não resolvia o problema. Pois um incrível jogo intrincado prosseguia adiante; onde as condições políticas, o ambiente dos agentes e todas as circunstâncias da colaboração mudavam com o passar do tempo. Tudo isso tinha influência sobre as condições psicológicas do colaborador. Além disso, o oficial condutor também podia cometer erros. Tudo isso interferia na qualidade da colaboração, sobre a importância do agente. Em outras palavras: é impossível avaliar igualmente a escala de colaboração de todos os agentes, colocá-los todos em um mesmo balaio. Inclusive nem a própria StB o fazia, frisando em suas avaliações que o agente XY era o melhor agente ou que o agente AB trazia mais riscos que vantagens e, é necessário pensar sobre a colaboração com ele ou limitar a mesma ou inclusive desistir deste. Todas estas circunstâncias devem ser levadas em conta e descritas detalhadamente em nossas pesquisas. Então, por um lado temos o fato indiscutível de que, na avaliação da StB, alguém tornou-se um colaborador, mas por outro lado temos a forma concreta desta colaboração. Tudo isso sobre o que estamos aqui falando é uma descrição do ponto de vista do serviço de inteligência de Praga: este, após a aprovação do Ministro, inscrevia alguém na lista de agentes e passava a conduzir a sua pasta de agente, na qual anotava todos os aspectos do trabalho em prol do serviço de inteligência tchecoslovaco. Em outros textos nossos, escrevemos que as pastas do serviço de inteligência tchecoslovaco podem ser tratadas como uma fonte confiável. Os fatos nelas descritos aconteceram e as pessoas nelas mencionadas existiram; estamos verificando tudo isso de várias maneiras. Nas pastas existem vários documentos em português. Tratam-se ou de materiais fornecidos pelos próprios agentes ou de relatórios por eles escritos. Também existem assinaturas em recibos de recebimento  de dinheiro por serviços prestados à StB.
Esse  fato, juntamente com as pesquisas do contexto dos casos, aumentam a probabilidade da veracidade do conteúdo das pastas. Mas sempre é preciso levar em conta a margem de erro. É preciso chegar a testemunhas dos acontecimentos descritos que ainda estejam vivas.


Em todos os países pos-comunistas as chamadas listas ( listas de colaboradores da polícia secreta) causam grande comoção. Espero que a leitura das observações acima descritas tenha nos demonstrado que qualquer lista pode ser tratada somente como uma ferramenta de apoio e revela que dado serviço de inteligência se interessou por alguém, mas não revela a natureza deste interesse. Pois a polícia secreta observava tanto aos inimigos do regime comunista (para tornar-se um inimigo como este, bastava ler literatura proibida) como aos seus próprios colaboradores. É a rozvědka, palavra tcheca para inteligência, ou seja, o serviço de inteligência, o qual era parte desta polícia secreta, e que tinha como escopo (entrando na etimologia da palavra, em tcheco: roz / vědka) o VĚDĚT, o saber. Saber o máximo possível sobre o país observado, por isso reunia informações usando para isso todo o seu aparelho, rede de contatos, inclusive legais, que tinha a disposição.  Ou seja, não usava somente os seus colaboradores secretos e não somente meios ilegais. Para a realização de ações de influência, ao lado de métodos ilegais, também eram usados aqueles que eram legais. Com este objetivo, era adquirido e reunido o conhecimento relacionado com um largo círculo de pessoas e objetos; nem todos eram agentes ou colaboradores conscientes. No que diz respeito a nossas pesquisas, nem todos os nomes que se encontram nos Diários de registro e Diários de arquivo da StB tchecoslovaca são nomes de agentes.
Outra questão importante: é preciso afirmar que muitos nomes interessantes não aparecem nas “listas”, ou seja, não encontram-se nos Diários de registro e de arquivo, mas os encontramos em diferentes documentos. São nomes de pessoas que não tornaram-se agentes e inclusive não foram “trabalhados” com mais profundidade, o que não significa que não possam ter tido algum papel (às vezes até importante) em operações da StB, no Brasil ou em outro lugar do mundo. Às vezes, este papel era somente um episódio, às vezes alguma forma de colaboração se estendia por mais tempo. Também acontecia de que novas circunstâncias que surgiam, impediam a possibilidade de aproveitamento da ajuda de determinada pessoa. Este é o caso de um certo jornalista brasileiro (Rui Rocha), que, no ano de 1965, possa, de uma forma inconsciente, ter ajudado em uma operação ativa. Mas aconteceu que seu irmão era estudante na Tchecoslováquia e a StB concluiu que este era um fator de risco, pois esta circunstância colocava automaticamente o jornalista em uma posição desvantajosa no Brasil da época, por isso, temporariamente, desistiu deste contato. Mas a StB reuniu informações sobre este jornalista e, o que é interessante, encontramos documentos nos quais estas informações reunidas foram descritas como “entrega de conhecimento aos amigos soviéticos”. De acordo com o título do documento elaborado no dia 8 de agosto de 1966, resulta claramente que o conhecimento sobre Rui Rocha foi entregue ao conselheiro da KGB junto à StB em Praga. É possível então afirmar que a KGB se interessava por essa pessoa, mas não sabemos com que objetivo.
Casos como este descrito acima vêm à tona somente através do estudo do conteúdo das pastas. Aqui surge uma pergunta importante sobre como encontrar pastas interessantes como esta, como chegar até elas? O buscador da página de internet do ABS possibilita a busca segundo nome, sobrenome, codinome, data de nascimento e, em primeiro lugar, segundo a unidade que fez o registro, número de registro e número de arquivo. As pastas de objetos relacionadas com o Brasil, podem ser encontradas ao escrever na rubrica de codinome (krycí jméno) ou de sobrenome (příjmení) a palavra Brazílie ou Rio de Janeiro ou outra que sugira relação com este país. A situação é facilitada através do conhecimento do número de registro; neste caso a busca resulta em quase cem por cento de acerto: trata-se de que, inevitavelmente, por causa do longo tempo em que funcionou a StB, os números podem se repetir e podem estar relacionados com diferentes pessoas. Nesta situação é preciso possuir um conhecimento, o qual com base a todas as anotações existentes nos Diários, nos permita especificar se dado número possui relação com o serviço de inteligência no exterior e com a sua secção americana; às vezes, o codinome da pessoa que ordenou a inscrição pode servir de ajuda para uma identificação exata; caso esta pessoa seja algum dos oficiais da secção sobre o serviço de inteligência americano, então podemos estar certos de que o colaborador inscrito operava em território da América Latina. Este conhecimento vem sendo adquirido por nós gradativamente e resulta da leitura das pastas e da literatura disponível sobre o assunto, assim como de consultas com historiadores e pesquisadores tchecos. O método mais lógico, mas ao mesmo tempo o mais trabalhoso, é escrever nomes concretos no buscador interno da página de internet do ABS. Só que este método é para pessoas pacientes e resistentes. Porém, é preciso dizer que foi justamente desta maneira que o pesquisador Mauro “Abranches” iniciou nossas pesquisas. O trabalho de um pesquisador é muitas vezes entediante e carente de grandes emoções: aquelas relacionadas com alguma descoberta espetacular aparecem somente depois de algum tempo; esse é o prêmio pelos esforços realizados.
É preciso ainda superar outro paradigma – publicar ou não publicar os nomes de agentes – este é o ponto mais sensível.  Por um lado, a prática das pesquisas na Europa central é de que os historiadores e pesquisadores, ao publicarem os resultados de seu trabalho, automaticamente publicam todos os nomes e dados pessoais de agentes e colaboradores da StB. Isso inicialmente causou uma certa comoção, mas com o tempo, começou a ser tratado como algo lógico: trata-se pois de mostrar completamente a verdade, de mostrar como funcionava o regime totalitário criminoso. Aqui é sempre necessário levar em conta mais uma circunstância: os agentes da polícia secreta tornavam-se colaboradores como consequência de chantagens ou outros métodos usados pelos órgãos de repressão, ou seja, pelos oficiais da polícia secreta. Estes, aproveitando-se de seu poder praticamente ilimitado, obrigavam as pessoas a colaborar, quebrando a sua resistência. Simplesmente transformavam pessoas normais em trapos morais.  Nesse contexto, é possível aceitar o ponto de vista de que o agente foi a vítima de um torturador, logo, o oficial da policia secreta é mais merecedor de sofrer condenação do que o seu colaborador. Esse cenário era mais comum dentro das fronteiras Tchecoslováquia, ou seja, com a atuação do Departamento II – contra inteligência. Os funcionários da inteligência que trabalhavam no exterior, por outro lado, não tinham à sua disposição o aparelho de repressão através do qual seus colegas em Praga poderiam se utilizar para mais facilmente obrigar as suas “vítimas” a colaborar. O trabalho dos funcionários no exterior era bem mais complexo, por causa das condições existentes em dado país, onde executavam as suas tarefas operacionais. Em outras palavras, simplificando: era necessário persuadir cidadãos de um país para que ajudassem um outro país estrangeiro, socialista (que fazia parte do bloco comunista). Do ponto de vista legal, os oficiais e colaboradores da StB eram infratores da lei (principalmente da legislação sobre segurança nacional) e as pessoas que decidiram colaborar com o serviço de inteligência estrangeiro foram simplesmente traidores de seu próprio pais. Nós não somos juízes, somente descrevemos o conteúdo de pastas de um serviço de inteligência estrangeiro, ou seja, apresentamos aquilo que este serviço reuniu e escreveu sobre diferentes pessoas, acontecimentos e instituições. Sendo assim, descrevemos o ponto de vista do serviço de inteligência de um país comunista que operava no Brasil. Para que a descrição seja completa, dever-se-ia também citar os nomes de pessoas concretas; todas, sem exceção, que tenham cumprido seu papel nesta história. Mas, antes de que façamos isso, devem ser levadas em consideração algumas questões importantes:
1) no Brasil esse será um acontecimento inédito, pois (até onde sabemos) ninguém nunca revelou nenhuma lista ou nomes de agentes de um serviço de inteligência estrangeiro;
2) não pretendemos fazer o papel de juiz de ações de outras pessoas;
3) para que seja possível, de modo responsável, citar o nome de alguém num contexto como este, é necessário um formato mais extenso que possibilite a apresentação de toda a questão, para que o leitor possa sozinho criar uma opinião e avaliar o grau de colaboração e comprometimento de dada pessoa que tenha o seu nome revelado e para que, também, tenha a oportunidade de conhecer (como já dito) a versão da pessoa citada com o caso. Pelo menos daquelas pessoas que ainda estão vivas.
Os leitores estão cada vez mais nos perguntando sobre pessoas concretas que são encontradas na página de internet do ABS. A resposta à pergunta se alguém foi agente da StB, considerando tudo aquilo que aqui foi descrito, pode ser: sim, esta ou aquela pessoa foi registrada pelo serviço de inteligência tchecoslovaco como colaborador. Entretanto, nesta resposta temos somente a simples informação de que alguém registrou outro alguém. O que isso significa, que consequências isso teve, qual foi o grau de colaboração, etc. – tudo isso deve ser pesquisado e descrito largamente. É isso que estamos tentando fazer. Qualquer material histórico deve ser tratado com modéstia e criticidade. Devemos sempre levar em consideração que as histórias descritas nas pastas da StB são histórias de pessoas reais e essas nem sempre são um simples preto no branco.

Vladimír Petrilák